PICOTE, UM AGREGADO MILENAR

Picote é um aglomerado milenar com origem num povoado proto-histórico sobranceiro ao Douro, provavelmente o mais importante dos aglomerados proto-históricos implantados ao longo do rio. Um antiquíssimo registo de presença humana é a bela inscultura rupestre de um caçador com arco, descoberta na Fraga do Puio.

O povoado primitivo estendia-se do Castelhar, na base da colina do Santo Cristo, até à Fraga do Puio. No centro desta zona foi descoberta em 1952 “a porca de Picote”, um berrão ao qual falta a cabeça, tendo escavações posteriores revelado a estrutura complexa de um santuário, provavelmente associado à celebração de ritos de fertilidade, que ainda seriam praticados no século IV.

Com a reorganização do espaço aquando da ocupação romana ocorre um progressivo, mas rápido, abandono de outros povoados fortificados. Situados no termo, o Castro do Picão do Diabo, e o Castro do Castelo, a sul. Nenhum destes dois castros proto-históricos da Idade do Ferro apresenta sinais de romanização.

A concentração destas populações no povoado de Picote/Castelhar concedem-lhe a dimensão que o terá tornado sede de civitas, uma unidade administrativa comparável aos atuais concelhos, embora mais extensa. Durante o Império a civitas que tinha Picote por sede devem abranger o espaço que hoje se designa por Terras de Miranda.

As mais de vinte estelas funerárias romanas, esculpidas em mármore num ornamentado estilo distinto e com epitáfios em latim, constituem o maior conjunto do Nordeste português e estão atualmente nos museus de Miranda e de Bragança, tendo sido encontradas junto da atual capela de Santo Cristo e terrenos adjacentes, o que permite supor que no alto dessa colina se localizava a necrópole romana. Foram também encontrados, mas não conservados, restos de construções romanas e um casal rural romano (vila) próximo do Picão de Penha d’Alva.

É pouco provável que o povoado tivesse sido afetado ou abandonado durante as incursões islâmicas pelo norte da Península. Nestes contextos de maior instabilidade, o “castelo” da Escalada, um local com excelentes condições naturais de defesa e onde têm sido recolhidos fragmentos de cerâmica medieval e uma moeda leonesa, poderia ter servido de refúgio temporário às populações ameaçadas.

Nas Inquirições do século XIII Picote é sede de paróquia, o que parece atestar que se trata de um aglomerado habitado de forma continuada, mas onde em 1530 se contavam apenas 62 habitantes.

A mais emblemática construção de origem medieval, mas muito alterada ao longo do tempo, é a capela de Santo Cristo dos Carrascos. Implantada no local elevado que terá sido necrópole romana, a qual poderia estar a ocupar um local de culto ainda mais antigo. Junto à Igreja matriz existem sepulturas medievais esculpidas na rocha, hoje soterradas. Num local ermo e sob uma rocha em pleno monte encontra- se o fresco dos “Santos” (segunda metade do século XVI), entre o termo da Freguesia de Picote e da Freguesia de Sendim.

ATIVIDADE DA POPULAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA FREGUESIA DE PICOTE

Em 1796, Picote tinha 71 fogos e 227 habitantes, ocupados na sua maioria na agricultura (90) e em outros ofícios, como é o caso do notável grupo de 8 fabricantes de lã, mas também alfaiates, sapateiros, carpinteiros e ferradores.

As indústrias artesanais necessárias ao trabalho agrícola e à vida quotidiana estavam em atividade ainda em meados do século XX, com destaque para as forjas, os teares, os lagares de vinho e azeite, os fornos de cozer o pão, os alambiques, os pombais, bem como uma dezena de moinhos de água ao longo do curso da Ribeira que corre para o Douro.

O fabrico de telha de barro e a cultura do bicho-da-seda chegaram a ter também alguma expressão. A cestaria, a preparação do linho e da lã para a tecelagem constituíam ocupação tradicional.

O trabalho agrícola, feito em base familiar e com recurso a animais de tração, sempre contou com a colaboração dos vizinhos num sistema de troca de trabalho (“torno a geira”). O perfil rural da vida quotidiana está bem expresso no importante núcleo de casas rurais que ainda subsistem na parte antiga da aldeia, geralmente de dois pisos e pequenas janelas, com a sua varanda frontal em madeira e escadas em pedra, ou então construídas em torno de um curral com divisões de habitação, celeiro. armazéns de forragens e palheiro dos animais.

O último surto de desenvolvimento da freguesia ocorreria entre 1953 e 1958 com a construção da barragem, que no seu, início suscitou forte reação da população. A continuada emigração, primeiro para o estrangeiro e atualmente para as grandes cidades, reduziu fortemente a população residente, mas também contribuiu para o crescimento e expansão da área residencial. A agricultura, os serviços, o comércio e alguma indústria, são as principais atividades da população atual.

BARROCAL DO DOURO

O Barrocal do Douro, aldeamento construído para os serviços e funcionários da barragem hidroeléctrica, é um notabilíssimo exemplo da arquitectura modernista portuguesa e do urbanismo planificado dos anos 50 e 60 de que são exemplo emblemático a Pousada (desactivada), a Capela e casas de habitação.

A secular ocupação do espaço humanizou a paisagem, com a criação de solos de cultivo e pastagem, demarcados pelo rendilhado da divisão dos terrenos com intermináveis muros de pedra e uma Iabirintica rede de caminhos mais ou menos marcados pelo uso.

Comments are closed.

Close Search Window