Picote destaca-se por ser uma das raras aglomerações humanas que manteve uma ocupação praticamente contínua ao longo dos últimos milhares de anos, atestada pelo invulgar número de vestígios arqueológicos encontrados no seu termo, datados desde a pré-história até à contemporaneidade. 

A esta importância não é alheio o posicionamento topográfico do local da aldeia, numa posição privilegiada na fronteira natural que é o Rio Douro. 

Picote é um aglomerado milenar com origem num povoado proto-histórico sobranceiro ao Douro, provavelmente o mais Importante dos aglomerados proto-históricos implantados ao longo do rio.

Arqueologia e Património Histórico

Ao explorar o aglomerado milenar de Picote, localizado no Planalto Mirandês, poderá contemplar as marcas deixadas pelas várias gerações que por aqui passaram.

Os testemunhos arqueológicos mais antigos registados na área de Picote assinalam uma ocupação do paleolítico, atestada pela descoberta de uma lâmina de sílex e de vários elementos de utensilagem lítica (lascas de cherte, núcleos e percutores de quartzo) toda ela proveniente de recolhas de superfície em âmbito de prospeção arqueológica dirigida pela Profª. Maria de Jesus Sanches em 2001 e 2002. Igualmente de mencionar são as várias estelas antropomórficas encontradas em Salgueiros que, segundo a citada investigadora, se poderão enquadrar entre o o 3º e o 4º milénio a.C.  Outro antiquíssimo registo de presença humana é a bela inscultura rupestre de um caçador com arco, descoberta na Fraga do Puio.

Durante o período da proto-história, e à semelhança do acontecido na região, o povoamento humano em Picote altera-se, levando ao aparecimento de um modelo ocupacional diferente e estruturado através de pequenos povoados, instalados em locais escarpados e de difícil acesso, potencializando as vantagens de defesa natural proporcionadas pela topografia.

 

No território da freguesia de Picote estão identificados e são atribuídos dois destes povoados muralhados: os castros de Picote e do Puio. O de Picote (Picões do Diabo, frequentemente designado de Castelo de Picão), a sudoeste da aldeia, está implantado num promontório em arriba sobre o rio Douro. A fortificação do local é conseguida através de um arco de muralha que controla a zona de acesso. Estes muramentos de pequena dimensão, não envolvem todo o recinto do povoado, registando apenas seis metros de comprimento, e estão localizados na única zona de acesso onde a passagem era mais facilitada.

Por último, o Castro do Puio (também designado como Castelhar) localiza-se entre a falésia da Fraga do Puio e a base da colina da capela do Santo Cristo. Este espaço, apesar de largamente destruído, quer pelos cultivos agrícolas quer em resultado da quase permanente ocupação, apresenta á superfície uma grande quantidade de fragmentos cerâmicos enquadráveis na Idade do Ferro. Terá sido a partir deste local e em direção a norte que a ocupações posteriores se vieram a desenvolver. O povoado primitivo estendia-se do Castelhar, na base da colina do Santo Cristo, até à Fraga do Puio. No centro desta zona foi descoberta em 1952 “a porca de Picote”, um berrão ao qual falta a cabeça, tendo escavações posteriores revelado a estrutura complexa de um santuário, provavelmente associado à celebração de ritos de fertilidade, que ainda seriam praticados no século IV.

Com a reorganização do espaço aquando da ocupação romana ocorre um progressivo, mas rápido abandono de outros povoados fortificados situados no termo, como o castro da Calçada, e o castro do Picão do Diabo, a sul. Nenhum destes dois castros proto-históricos da Idade do Ferro apresenta sinais de romanização. A concentração destas populações no povoado de Picote/Castelhar concedem-lhe a dimensão que o terá tornado sede de civitas, uma unidade administrativa comparável aos atuais concelhos, embora mais extensa. Durante o Império, a civitas que tinha Picote por sede devem abranger o espaço que hoje se designa por Terras de Miranda. As mais de vinte estelas funerárias romanas, esculpidas em mármore num ornamentado estilo distinto e com epitáfios em latim, constituem o maior conjunto do Nordeste português e estão atualmente nos museus de Miranda e de Bragança, tendo sido encontradas junto da atual capela de Santo Cristo e terrenos adjacentes, o que permite supor que no alto dessa colina se localizava a necrópole romana. Foram também encontrados, mas não conservados, restos de construções romanas e um casal rural romano (vila) próximo do Picão de Penha d’Alva.

As escavações levadas a cabo pelo Projeto História do Povoamento de Picote, entre 2015 e 2017, promovidas pela FRAUGA-Associação para o Desenvolvimento Integrado de Picote, num olival no sopé da colina de Santo Cristo puseram a descoberto vários compartimentos de uma construção romana de médias dimensões. Foi recolhido diverso espólio, entre o qual se incluem fragmentos de cerâmica de importação romana, vidro, elementos em bronze e algumas moedas atribuídas ao séc. III d.C.

É pouco provável que o povoado tivesse sido afetado ou abandonado durante as incursões islâmicas pelo norte da Península. Nestes contextos de maior instabilidade o “castelo” da Escalada, um local com excelentes condições naturais de defesa e onde têm sido recolhidos fragmentos de cerâmica medieval e uma moeda leonesa, poderia ter servido de refúgio temporário às populações ameaçadas. Nas Inquirições do século XIII Picote é sede de paróquia, o que parece atestar que se trata de um aglomerado habitado de forma continuada, mas onde em 1530 se contavam apenas 62 habitantes.

A mais emblemática construção de origem medieval, mas muito alterada ao longo do tempo, é a capela de Santo Cristo dos Carrascos. Implantada no local elevado que terá sido necrópole romana, a qual poderia estar a ocupar um local de culto ainda mais antigo. Junto à Igreja Matriz existem sepulturas medievais esculpidas na rocha, hoje soterradas. Num local ermo e sob uma rocha em pleno monte encontra- se o fresco dos “Santos” (segunda metade do século XVI), entre o termo da Freguesia de Picote e da Freguesia de Sendim.

O Barrocal do Douro, aldeamento construído para os serviços e funcionários da barragem hidroelétrica, é um notabilíssimo exemplo da arquitetura modernista portuguesa e do urbanismo planificado dos anos 50 e 60 de que são exemplo emblemático a pousada, a capela e casas de habitação.

A secular ocupação do espaço humanizou a paisagem, com a criação de solos de cultivo e pastagem, demarcados pelo rendilhado da divisão dos terrenos com intermináveis muros de pedra e uma labiríntica rede de caminhos mais ou menos marcados pelo uso.

A Língua Mirandesa

O soar do mirandês está tão presente naquilo que fomos e que somos. Conheça um dos mais ricos e vivos elementos de ligação com o passado histórico da nossa região. Descubra a língua mirandesa em Picote, a primeira localidade da região a colocar a toponímia em mirandês, assumindo assim um papel pioneiro no reconhecimento e na valorização do mesmo.

O mirandês está presente na nossa comunicação quotidiana, nas cantigas, no romanceiro tradicional, nos painéis informativos junto dos monumentos e nas placas afixadas nas ruas de Picote. Conheça a nossa identidade

O mirandês, que se fala em Picote, constitui um dos mais ricos e vivos elementos de ligação com o passado histórico da região. Esta língua evoluiu a partir do latim vulgar falado no final da Idade Média, derivando dos falares asturo-leoneses, o que revela bem as ancestrais relações culturais e económicas com esta região e o relativo isolamento em que as terras de Miranda viveram durante séculos face às restantes regiões portuguesas. Mas, são as características próprias da língua que lhe garantem a sobrevivência e evolução, diferenciando-a bastante das restantes do grupo asturo-leonês. O enraizamento da língua mirandesa reflete-se na variedade de situações em que é usado, na comunicação quotidiana e na toponímia, que está transposta para as placas dos nomes das ruas da freguesia. Picote foi a primeira aldeia da região linguisticamente mirandesa a colocar os nomes da rues, caleijas i caminos em mirandês, no verão de 1997.

 

Os topónimos são termos descritivos uma vez que há neles informação sobre os aspetos e acontecimentos que os originaram. Assim, entre os fatores extralinguísticos poder encontrar aqueles que têm a ver com a realidade geográfica e ambiental do lugar, a configuração e as propriedades do terreno, as características ambientais de tipo climatológico, botânico, hidrológico, etc. Por isso, esta toponímia tradicional constitui-se como um verdadeiro mapa do povoado tradicional que nos convida a descobrir, em cada nome, uma história, com que o homem deu nome às coisas, ordenando-as e conferindo-lhes um significado. Por isso, a Caleija de tiu Florindo, a Rue de la Frauga, o Toural, a Rue de la Renal, a Rue de l Sierro, não são meras designações que figuram, bem ou mal, nas placas toponímicas. São chaves que nos permitem entrar pela porta da história, palavras que transportam e contam lendas cartografadas nestas designações à espera de serem lidas e interpretadas.

Picote foi também a primeira localidade a dar voz à literatura popular que, através de contos, cancões, lendas, mitos, constitui uma das maiores riquezas da nossa cultura e da nossa identidade. Daqui resultou a publicação, em 1999, da obra “Lhiteratura oral mirandesa”, que decorreu de um concurso e de recolhas levado a cabo pela FRAUGA e financiado, entre outras entidades, pela Comissão Europeia.

 

Mas o mirandês é sobretudo uma língua viva. É nela e através dela que os mirandeses comunicam no seu quotidiano, numa espessura cultural enriquecida pelos séculos e pelas civilizações que aqui deixaram as suas marcas. Filha do latim vulgar, trazido e falado pelos romanos, a língua mirandesa não deixou de incorporar muitas raízes e termos das línguas faladas pelos povos que precederam a civilização latina.

Ourrieta, topónimo que surge sob diferentes formas e variantes, simples ou compostas, com diminutivos ou aumentativos, é seguramente um dos exemplos mais referidos como sendo uma forma pré-romana. A palavra, designando um pequeno vale ou pedaço de terra arável é, de facto, uma forma pré-romana, como o é, no campo da toponímia, sculca, badecualho e também barrocal, barranco e seguramente muitas outras do nosso termo.

Noutras áreas podemos também citar lhape, forma com origem na pré-céltica lappa que designa uma grande pedra ou laje que forma um abrigo natural; carrasco, palavra comum a outras línguas peninsulares, de uma raiz pré-romana karr; tarugo e também taladro, possivelmente de uma raiz céltica taratrum; e tantas outras como barro, cambas, cabanha, cuneilho, perro, que são algumas das marcas que os povos pré-romanos, iberos, celtas e fenícios deixaram no falar mirandês.

Com a queda do Império Romano chegaram outras civilizações e, com elas, vieram novas técnicas, novos utensílios e, naturalmente, novas palavras para os designar. Chegaram, em primeiro lugar, os povos germânicos – vândalos, alanos, suevos e também os visigodos – que trouxeram novas técnicas entre as quais a de fiar e daí que a tradicional conucula romana (diminutivo de colus, que se conservou no francês quenouille) tenha sido substituída pela ruoca (do germânico *rŏkko). O mesmo acontece com a palavra gadanha cuja formação advém da forma gótica waithô que significa prado.

Mas o maior contributo veio, sem dúvida, dos mouros ou muçulmanos, que terão contribuído, por exemplo, de para melhorar as técnicas de rega e também de transformação do azeite. Por isso, é normal que aqui tenham deixado muito vocabulário que veio substituir e fazer esquecer as palavras latinas: azeituna, zambunho e a própria palavra azeite, comum ao português, são alguns dos exemplos aos quais podemos acrescentar muitas outras palavras tais como retama, alquitara, xara, xaral, máçcara, alçafran, balancie

Festas e Tradições

Festeje connosco na Festa em Honra do Divino Santo Cristo dos Carrascos. Uma celebração realizada nos meses de maio e agosto.

Conheça os cantares e a música tradicional que acompanham as danças de roda ou dos pauliteiros. Picote, a par de outras aldeias do concelho é também terra de Pauliteiros, que através do seu grupo, levou a cultura da Terra de Miranda a todo o país e estrangeiro, tendo o seu auge nas décadas de 80 e 90 do século XX e que ainda hoje em momentos festivos se reúne para animar as festas.

As festas da aldeia estão associadas ao calendário religioso. A maior, a Festa em honra de Santo Cristo dos Carrascos, celebrava-se, tradicionalmente, no mês de maio, no domingo que corresponde ao quadragésimo dia da Ressurreição. E é assim que, em 1758, o Padre António Gonçalves Calvo, cura de Picote, a descreve para as Memórias Paroquiais: A festa realiza-se na “segunda oitava de Pentecostes” e a ela “concorrem num dia muitas pessoas das povoações vizinhas de que se compõem feira, em que se vendem algumas coisas comestíveis e outras de pouca estimação.”

Vemos assim que esta festividade tem raízes muito antigas que vão, naturalmente, para lá do século XVIII cuja matriz cristã deverá entroncar, também ela, em antigos cultos realizados neste mesmo monte dos carrascos. Ritos ancestrais, de fertilidade, talvez, das colheitas, pois que, como também se refere nas citadas “Memórias Paroquiais”, o centeio e o trigo constituíam uma das colheitas mais importantes desta aldeia. A memória das pessoas diz-nos que, até há bem pouco tempo, era comum oferecer, nesta festa, “sacos de trigo” e o próprio era, até há bem pouco tempo, ornamentado com trigo semeado uns dias antes.

Nas últimas duas ou três décadas do século XX, a fim de permitir que um maior número de pessoas assistisse, a Festa de Santo Cristo foi transferida para o mês de agosto. Contudo, nos últimos anos, a festa tem-se realizado novamente na sua data tradicional.

Outra festividade de grande importância é a Festa em honra e louvor de Santa Bárbara. Tradicionalmente tinha lugar no mês de setembro, no final das safras agrícolas, sendo por isso indissociável da festa das colheitas.

A raiz cristã quis que a Santa fosse a protetora das trovadas que, em Picote, no verão, costumam trazer alguma violência e causar alguns estragos na agricultura. Por isso, nada mais natural do que invocar a proteção divina. Mas a festividade está também associada a outra das marcas mais peculiares e profundas da cultura desta região: os pauliteiros.

Com efeito, eram eles que, tradicionalmente, iam de porta em porta pedindo a esmola para a festa. Os “bailadores” eram, geralmente, rapazes solteiros, sendo que o próprio ato de entrar na “dança” constituía um verdadeiro rito de iniciação. Os ensaios realizavam-se no final de verão, após as ceifas, e preparavam os melhores para ir de rua em rua, de porta em porta, dançando e pedindo a esmola para festa.

Diversas outras manifestações de raiz profana ou pré-cristã, estão hoje associadas ao calendário religioso, como é o caso da monumental fogueira de Natal, que durante dias arde no largo principal, consumindo lenha que outrora era recolhida às escondidas e a coberto da noite pelos rapazes solteiros. Na passagem de ano era de tradição atravancar as ruas com objetos de grande dimensão: arados, carros de bois, etc. A matança do porco sempre foi um momento alto na vida doméstica, onde se repete um ritual ancestral que culmina numa refeição em que se comem algumas partes do próprio animal num cozinhado, sendo tudo o resto conservado em salmoura ou em fumeiro. Em todas as ocasiões festivas havia e há danças de roda ou dos pauliteiros, acompanhadas por cantares e música com instrumentos tradicionais: bombo, caixa de guerra, flauta e gaita.

Algumas tradições musicais estão ligadas aos próprios trabalhos agrícolas, durante os quais se cantava como na segada ou cardando o linho. Nos longos serões de inverno eram também contados e cantados romances históricos ou de encantar.

Gastronomia

Conheça os sabores da nossa Terra, explore a gastronomia e conheça o enoturismo local.

A alimentação tradicional esta associada às culturas agrícolas de tipo mediterrânico, como os cereais, a azeitona, a castanha, a uva, a amêndoa e os produtos hortícolas, da época ou de longa conservação, sobretudo a batata, a cebola e os diferentes tipos de feijão, mas também os vegetais sazonais de crescimento espontâneo, como os espargos, as beldroegas e os cogumelos.

Estes produtos constituem a base da alimentação diversificada nos componentes e nos preparos, marcadas pelo uso abundante do azeite, do pão e das carnes de porco, de cordeiro, de vaca, de aves e de caça geralmente assadas na brasa, apenas com tempero de sal.

O fumeiro de carnes de porco em enchidos ou curadas, constitui um recurso alimentar disponível ao longo do ano e de grande variedade de sabores.

No que à doçaria diz respeito, temos as compotas e os bolos tradicionais.

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